GALLO ROJO, GALLO NEGRO

Cuando canta el gallo negro, es que ya se acaba el día.
Si cantara el gallo rojo otro gallo cantaría.

Se encontraron en la arena los dos gallos frente a frente.
El gallo negro era grande pero el rojo era valiente.

Ay! Si es que yo miento, el cantar que yo canto lo borre el viento.
Ay! Que desencanto si me borrara el viento lo que yo canto.

Se miraron cara a cara y atacó el negro primero.
El gallo rojo es valiente pero el negro es traicionero.

Gallo negro, gallo negro, gallo negro te lo advierto.
No se rinde un gallo rojo más que cuando está ya muerto.

Ay! Si es que yo miento, el cantar que yo canto lo borre el viento.
Ay! Que desencanto si me borrara el viento lo que yo canto.

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CORRIDO DE ARTURO GÁMIZ

(Letra e música: Judith Reyes)

 

Ciento veinticinco verdes

de esos que defienden hoy

el latifundio del rico

llamándolo institución

ametrallaron rabiosos

la guerrilla popular

y desgajaron con balas

una esperanza rural.

 

El 23 de septiembre

muy presente tengo yo

año del sesenta y cinco

en Madera sucedió;

casi por la madrugada

el cuartel se estremeció,

Arturo Gámiz llegaba

con los hombres que escogió.

 

Portaba rifle muy bueno

carabina militar

una granada en la mano

y la confianza de ganar,

ira revolucionaria

estremecía su corazón

porque la reforma agraria

era burla de la nación.

 

Arturo Gámiz le dijo

al campesino del lugar

por los caminos legales

tierras no te van a dar

si acapararon la tierra

los Borunda y Alemán

toma tu rifle y pelea

como lo hacen los Gaytán.

 

Lo persiguieron soldados

y Arturo los desarmó

y por dos veces yo supe

que encuerados los dejó

ya se traía bien cansado

al gobiernito de Giner

porque su causa era justa

y por ser más hombre que él.

 

La concesión que el gobierno

alemanista dio a Trouyet

para que explote los bosques

de Chihuahua, mire usted,

cómo ha dejado sin tierra

al campesino del lugar

y al Tarahumara y al Pima

no se cansan de explotar.

 

Por eso es que Pablo Gómez

no se pudo contener

pronto se fue pa’ la sierra

para nunca más volver

Pablo murió con Arturo

asaltando ese cuartel

su rifle fue poca cosa

para un corazón como él.

 

Adiós doctor Pablo Gómez

Adiós Salomón Gaytán

Adiós Valdivia y Quiñones

ya no los perseguirán

adiós Emilio y Antonio

y el que no supe quién fue

Arturo Gámiz no ha muerto

y ustedes saben por qué.

Poema ?

Imagen 030

RELAÇÃO DOS FATOS

 

Hoje, sexto dia do mês

de agosto do ano

mil novecentos e sessenta e nove,

estando prevenida a história

o café amargo

o tabaco por terminar

a tarde por fenecer

e tudo adequado para conspirar

contra as sombras e trevas

que opacam o mundo e seu sol,

os assinantes abaixo comparecem

ante mim, a pátria, para

declarar o seguinte:

 

Primeiro.- Que os assinantes abaixo

renunciam a sua casa, trabalho,

família e estudos e a todas as

comodidades que, sobre a miséria

dos demais, hão-se acumulado

nas mãos de poucos.

 

Segundo.- Que os assinantes abaixo

renunciam a um futuro

vendido em abonos para

disfrute individual.

 

 

Terceiro.- Que os assinantes abaixo

renunciam também à couraça

de indiferença frente ao sofrer

de outros, e à vanglória de um

lugar entre os poderosos.

 

Quarto.- Que os assinantes abaixo

estão dispostos a todos os

sacrifícios necessários para lutar

silenciosamente e sem descanso para

fazer a mim, a pátria, livre e

verdadeira.

 

Quinto.- Que os assinantes abaixo

estão dispostos a padecer

perseguição, calúnias e torturas,

e inclusive morrer, se for preciso, para

lograr o assinalado no ponto

quarto.

 

Sexto.- Que eu, a pátria, saberei

guardar-lhes seu lugar na história

e velarei por sua memória

como eles velaram por minha vida.

 

Sétimo.- Que os assinantes abaixo

deixam bastante espaço abaixo de

seus nomes para que todo homem

e mulher honestos assinem este

documento e, chegado o momento,

o rubrique o povo inteiro.

 

Não havendo mas o que dizer

e, sim, muito por fazer, os

assinantes abaixo deixam seu

sangue como exemplo e

seus passos como guia.

 

Heroica e respeitosamente.

 

VIVER PELA PÁTRIA OU

MORRER PELA LIBERDADE.

 

MANUEL, SALVADOR, ALFREDO,

MARÍA LUISA, GONZALO,

MANOLO, SOLEDA, MURCIA,

AURORA, GABRIEL, RUTH,

MARIO, ISMAEL, HÉCTOR,

TOMÁS, ALFONSO, RICARDO…

 

E seguem assinaturas dos

que haverão de morrer e

dos que haverão de viver

lutando neste

país de dolorosa história

chamado México, abraçado

pelo mar e, em breve,

com o vento a seu favor.

 

Capitão Segundo de Infantaria Insurgente Marcos

 

Agosto de 1986

Villa

1911

Campos de Chihuahua

 PANCHO VILLA

De todos os chefes nortistas que levaram Madero à presidência do México, Pancho Villa é o mais amado e amoroso.

Gosta de se casar e o faz de tempos em tempos. Com uma pistola na nuca, não há padre que se negue nem mocinha que resista. Também gosta de dançar o tapatío ao som da marimba e de se meter em tiroteios. Brotam-lhe as balas, no sombreiro, como se fosse chuva.

Atirou-se muito cedo ao deserto:

– Para mim, a guerra começou quando nasci.

Era quase uma criança quando vingou a irmã. Das muitas mortes que carrega, a primeira foi a do patrão; e teve de se fazer ladrão de gado.

Nasceu chamando-se Doroteo Arango. Pancho Villa era outro, um companheiro de bando, um amigo, o mais querido: quando os guardas rurais mataram Pancho Villa, Doroteo Arango lhe recolheu o nome e com ele ficou. Passou a se chamar Pancho Villa, contra a morte e o esquecimento, para que seu amigo seguisse vivendo.

 

Eduardo Galeano, em Memória do fogo: O século do vento.

Sinfonia

Sinfonia circular para países pobres, em seis movimentos sucessivos.

Para que os braços operários sejam cada vez mais obedientes e baratos, os países pobres necessitam de legiões de carrascos, torturadores, inquisidores, carcereiros e delatores.

Para alimentar e armar essas legiões, os países pobres necessitam de empréstimos dos países ricos.

Para pagar os juros desses empréstimos, os países pobres necessitam de mais empréstimos.

Para pagar os juros dos juros somados aos empréstimos, os países pobres necessitam aumentar as exportações.

Para aumentar as exportações, produtos mal falados, preços condenados a quedas perpétuas, os países pobres necessitam baixar os custos de produção.

Para baixar os custos de produção, os países pobres necessitam de braços operários cada vez mais obedientes e baratos.

Para que os braços operários sejam cada vez mais obedientes e baratos, os países pobres necessitam de legiões de carrascos, torturadores, inquisidores…

 

Eduardo Galeano, em Memória do fogo III: O século do vento.

Zapata

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Nasceu cavalheiro, arrieiro e domador. Cavalga deslizando-se, navegando a cavalo pelos prados, cuidadoso para não importunar o sono profundo da terra. Emiliano Zapata é homem de silêncios. Ele diz calando. Os campesinos de Anenecuilco, sua aldeia, casinhas de taipa e palma salpicadas na colina, fizeram de Zapata o seu líder e lhe entregaram os papéis do tempo dos vice-reis, para que ele saiba guardá-los e defendê-los. Esse calhamaço de documentos prova que esta comunidade, arraigada aqui desde sempre, não é intrusa em sua terra.

A comunidade de Anenecuilco está estrangulada, como todas as demais regiões comunidades da região de Morelos. Cada vez há menos ilhas de milho no oceano de açúcar. Da aldeia de Tequesquitengo, condenada a morrer porque seus índios livres se negavam a converter-se em peões de quadrilha, não resta mais do que a cruz da torre da igreja. As imensas plantações investem tragando terras, águas e bosques. Não deixam espaço nem para enterrar os mortos:

– Se querem semear, semeiem em vasos de planta.

Jagunços e “homens da lei” se ocupam do despejo, enquanto os devoradores das comunidades escutam concerto em seus jardins e criam cavalos de polo e cachorros de exposição.

Zapata, o caudilho dos lugarejos avassalados, enterra os títulos vice-reais debaixo do piso da igreja de Anenecuilco e se lança à guerra. Sua tropa de índios, bem postada, bem montada, mal armada, cresce ao avançar.

 

Eduardo Galeano, em Memória do fogo III: O século do vento.

RICARDO FLORES MAGON

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POR SEGUIR CRENDO QUE TUDO É DE TODOS

Ricardo, o mais talentoso e perigoso dos irmãos Flores Magón, tem estado ausente da revolução que tanto ajudou a desatar. Enquanto o destino do México se decidia nos campos de batalha, ele picava pedras, preso por grilhões, numa cadeia norte-americana.

Um tribunal dos Estados Unidos o havia condenado a vinte anos de trabalho forçado, por haver firmado uma manifesto anarquista contra a propriedade privada. Várias vezes lhe ofereceram perdão; se o pedisse. Nunca pediu.

Quando eu morrer, meus amigos talvez escrevam em minha lápide: “Aqui, jaz um soldado”, e meus inimigos “Aqui, jaz um louco”. Mas não haverá ninguém que se atreva a estampar esta inscrição: “Aqui, jaz um covarde e traidor das suas ideias”.

Em sua cela, longe da sua terra, estrangulam-no. Parada cardíaca, diz o laudo médico.

Um só olhar, diferentes visões.

 

Eduardo Galeano, em Memória do fogo III: O século do vento.