Durito II

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(O neoliberalismo visto a partir da Selva Lacandona)

Era o décimo dia, já com menos pressão. Afastei-me um pouco para poder levantar acampamento. Ia olhando para o alto, buscando um bom par de árvores que não tivesse galhos soltos. Por isso, me surpreendi quando, aos meus pés, escutei uma voz que gritava: “Ei, cuidado!”

Não vi nada, a princípio, mas me detive e esperei. Quase imediatamente uma folhinha começou a se mover e, de debaixo dela, saiu um besouro que começava a reclamar: Por que não olha por onde anda? Estive a ponto de ser esmagado! – gritou.

Esse reclame não me era estranho.

Durito? – aventurei.

Nabucodonosor para você! Não te dou essas confianças! – respondeu indignado o pequeno besouro.

Já não restavam dúvidas.

Durito! Não se lembra de mim?

Durito, quer dizer, Nabucodonosor, ficou me olhando pensativo. Tirou um pequeno cachimbo das asas, encheu-o de tabaco, acendeu-o e, depois de uma funda tragada, que lhe arrancou uma tosse nada saudável, disse:

Mmmmh, mmmh.

E logo, repetiu:

Mmmh, mmmh.

Sabendo que isso iria demorar, eu me sentei. Depois de vários “mmmh, mmh”, Nabucodonosor, ou seja, Durito, exclamou:

Capitão?!

Isso! – disse eu, satisfeito por me ver reconhecido.

Durito (creio que, depois de ser reconhecido, podia novamente chamá-lo assim) começou uma série de movimentos de patinhas, que, na linguagem corporal dos besouros, significa algo como uma dança da alegria, e que, a mim, sempre me pareceu uma espécie de ataque de epilepsia. Depois de repetir várias vezes, com ênfases distintas, “Capitão!”, Durito se deteve, enfim, e me lançou a pergunta que tanto temia:

Trouxe tabaco?

Bom, eu… – alonguei na resposta, pra me dar tempo de calcular as minhas reservas.

Nisso, chegou Camilo e me perguntou:

Me chamou, Sup?

Não, nada… Eu estava cantando e… e não se preocupe, pode ir – respondi, com nervosismo.

Ah, bom – disse Camilo e se retirou.

Sup? – perguntou Durito, com estranheza.

Sim, eu lhe disse. Agora, eu sou subcomandante.

E isso é melhor ou pior que Capitão? – insistiu Durito.

Pior – eu lhe disse e me disse.

Rapidamente, eu mudei de assunto e lhe estendi a bolsa de tabaco, dizendo:

Aqui, tenho um pouco.

Para receber o tabaco, Durito, novamente, realizou a sua dancinha, agora repetindo “obrigado” várias vezes.

Passada a euforia tabacaleira, iniciamos a complicada cerimônia do acender do cachimbo. Eu me deitei sobre a mochila e fiquei olhando para Durito.

Você continua igual – lhe disse.

Você, pelo contrário, tá bem acabadinho – me respondeu.

É a vida, eu disse, tentando tirar importância.

Durito começou com os seus “mmmh, mmh”. Logo, me disse:

E o que te trás por aqui, depois de tantos anos?

Bom, estive pensando e, como não nada pra fazer, me disse: “por que não dar uma volta pelos velhos lugares, encontrar com os velhos amigos…” – respondi.

Velhas são as colinas e reverdecem! – reclamou indignado Durito.

Depois se seguiu outro tempo de “mmmh, mmmh” e de seus olhares inquisidores.

Eu não me aguentei e acabei confessando:

A verdade é que nós estamos recuando, porque o governo lançou uma ofensiva de contra-atraque …

E você correu! – disse Durito.

Tratei de explicá-lo o que é um recuo estratégico, uma retirada tática, e o que mais me ocorreu nesse momento.

E você correu, disse Durito, agora com um suspiro.

Bom… Sim, corri. E daí? – disse aborrecido, mais comigo mesmo do que com ele.

Durito não insistiu. Ficou calado por um bom tempo. Apenas a fumaça dos dois cachimbos estendia uma ponte entre nós. Minutos depois, disse:

Parece que alguma coisa te incomoda, e não é apenas a “retirada estratégica”.

“Recuo”, “recuo estratégico”- lhe corrigi.

Durito esperou que eu continuasse:

O que mais me aborrece é que não estávamos preparados. E não estávamos preparados por minha culpa. Eu acreditava que o governo queria o diálogo e, então, dei ordem para que começassem a consulta para os delegados. Quando nos atacaram, nós estávamos discutindo as condições de diálogo. Nos surpreenderam. Me surpreenderam… – disse com tristeza e coragem.

Durito seguia fumando. Esperou que eu terminasse de contar todo o ocorrido durante os últimos dez dias. Quando terminei, Durito disse:

Espera aí!

E se meteu debaixo de uma folhinha. Logo, voltou empurrando a sua escrivaninha. Depois, pegou uma cadeirinha, sentou-se, sacou alguns papeis e começou a revisá-los com ar preocupado.

Mmmh, mmh – dizia a cada tanto de papeis que lia. Depois de um tempo, exclamou:

Aqui está!

Aqui está o quê? – perguntei intrigado.

Não me interrompa! – disse sério e solene. E acrescentou:

Preste atenção. O seu problema é o mesmo de muitos. Refere-se à doutrina econômica e social conhecida como “neoliberalismo”…

“Era o que me faltava… aula de economia política”, pensei. Parece que Durito ouviu os meus pensamentos, porque rosnou:

Sssht! Esta não é uma aula qualquer! É a cátedra por excelência.

Pareceu-me meio exagerado esse negócio de “a cátedra por excelência”, mas me dispus a ouvi-lo. Durito continuou depois de uns “mmmh, mmmh”.

É um problema metateórioco! Sim, vocês partem do pressuposto de que o “neoliberalismo” é uma doutrina. E, por “vocês”, refiro-me aos que insistem em esquemas rígidos e quadrados, como as suas cabeças.  Vocês pensam que o “neoliberalismo” é uma doutrina do capitalismo para enfrentar as crises econômicas que ele atribui ao “populismo”. Certo? Durito não me deixa responder.

Claro que é certo! Bem, acontece que o “neoliberalismo” não é uma teoria para enfrentar ou explicar a crise. É a crise mesma feita teoria e doutrina econômica! Isto é, o neoliberalismo não tem a mínima coerência, não tem planos nem perspectiva histórica. Enfim, pura merda teórica.

Muito bom… Nunca havia escutado, ou lido, essa interpretação – disse com surpresa.

É claro! Porque acaba de me ocorrer nesse instante! – disse com orgulho Durito.

E o que isso tem a ver com a nossa fuga, perdão, com o nosso recuo? – perguntei já duvidando de tão nobre teoria.

Ah! Ah! Elementar, meu caro Watson Sup! Não há planos, não há perspectivas, apenas i-m-p-r-o-v-i-s-a-ç-ã-o. O governo não tem constância: um dia somos ricos, noutro dia somos pobres, um dia queremos a paz, noutro dia queremos a guerra, um dia jejua, noutro dia se atola, enfim. Me explico? – me inquere Durito.

Quase… – eu titubeio e quebro a cabeça.

E então?  – eu pergunto ao ver que Durito não continua com a sua dissertação.

Vai explodir. Pum! Como um balão que se enche demais. Isso não tem futuro. Vamos ganhar – disse Durito, enquanto guardava os seus papeis.

Vamos? – pergunto com malícia.

Claro que “vamos”! Está mais que provado que não vão conseguir sem a minha ajuda. Não, não queria colocar empecilhos. Vocês precisam de um super assessor. Eu já estou aprendendo francês e tudo.

Eu fiquei calado. Não sei o que é pior: se descobrir que somos governados pela improvisação ou imaginar Durito como secretário de gabinete num improvável governo de transição.

Durito arremete:

Te surpreendi, né? Logo, não tenha medo. Enquanto não me esmagarem com as suas botinas, sempre poderei clarificá-los o caminho a seguir na trilha da história, que, apesar das vicissitudes, haverá de levantar este país, porque unidos… porque unidos… Agora que eu lembrei, nem escrevi pra minha mãe – Durito solta uma gargalhada.

Pensei que você estava falando sério! – finjo raiva e lhe atiro um raminho. Durito se esquiva e continua rindo.

Já em calma, eu lhe pergunto:

E de onde você tirou essas conclusões de que o neoliberalismo é a crise feita doutrina econômica?

Ah! Desde livro que explica o projeto econômico 1988-1994 de Carlos Salinas de Gortari – responde e me mostra um livrinho com o logotipo de Solidariedad.

Mas Salinas já não é mais o presidente… eu acho – digo com uma dúvida que me estremece.

Eu já sei, mas olhe quem redatou o plano – disse Durito, e me aponta um sobrenome. Eu leio:

“Ernesto Zedillo Ponce de León” – digo surpreso, e acrescento:

De modo que não há ruptura?

O que há é uma cova de ladrões – disse, implacável, Durito.

E então? – pergunto com verdadeiro interesse.

Nada. O sistema político mexicano é como esse galho da árvore que pende acima da sua cabeça – disse Durito, e eu desconverso, enquanto olho para o alto e vejo que, em efeito, há um galho ameaçador pendendo sobre a minha rede. Troco de lugar enquanto Durito segue falando:

O sistema político mexicano está preso à realidade apenas por galhos muito frágeis. Bastará um bom vento para que tudo venha abaixo. Claro que, ao cair, vai levar junto consigo outros galhos que estejam mais abaixo, e ai daquele que estiver sob a sua sombra quando tudo despencar!

E se não houver vento? – pergunto enquanto confiro se a rede ficou bem amarrada.

Haverá… haverá – disse Durito e ficou pensativo, como olhando para o amanhã.

Ficamos os dois pensativos. Voltamos a acender os cachimbos. A noite vinha vindo. Durito ficou olhando para as minhas botas. Temeroso, perguntou:

E quantos vêm contigo?

Mais dois, não precisa se preocupar com os pisões – disse para tranquiliza-lo. Como pratica a dúvida metódica como disciplina, Durito começou com seus “mmmh mmmh”, até que soltou:

Mas os que vêm atrás de você, quantos são?

Ah! Esses? Uns sessenta…

Durito não me deixou terminar:

Sessenta! Sessenta pares de botinas em cima da minha cabeça! Cento e vinte botas da Sedena buscando a melhor forma de me esmagar! – gritou histérico.

Espera, voe não me deixou terminar. Não são sessenta, eu disse. Novamente, Durito me interrompeu:

Ah! Eu sabia que não era possível tamanha desgraça. Então quantos são? Lacônico, eu respondi:

Sessenta mil.

Sessenta mil!? – disse Durito antes de se engasgar com a fumaça do cachimbo.

Sessenta mil! – repetiu várias vezes entrecruzando com angústia as suas mãozinhas e patinhas.

Sessenta mil! – dizia desesperado.

Eu tratei de consolá-lo. Disse-lhe que não vinham todos juntos, que era uma ofensiva em escalões, que estavam entrando por vários lados, que faltava que nos encontrasse, que havíamos apagado os rastros para que não nos seguissem, enfim, disse-lhe tudo o que me ocorreu.

Logo, Durito e tranqüilizou e começou de novo com seus “mmmh mmmh”. Sacou uns papeizinhos que, pelo que eu percebi, pareciam mapas e começou a me fazer perguntas sobre a localização das tropas inimigas. Respondi-lhe o melhor que pude. A cada resposta, Durito fazia marcas e anotações nos pequenos mapas. Passou um bom tempo, depois do interrogatório, dizendo “mmmh mmmh”. Passados alguns minutos, e depois de complicados cálculos (digo, porque usava todas as suas mãozinhas e patinhas para fazer as contas) suspirou:

Disse: usam “a bigorna e o martelo”, o “laço corrediço”, a “caça ao coelho” e a manobra vertical. Elementar, vem no manual dos Rangers da Escola das Américas, se disse e me disse. E acrescentou:

Mas temos uma oportunidade de sair bem dessa.

Ah, sim? E como? – perguntei com ceticismo.

Com um milagre – disse Durito enquanto guardava os seus papéis e se deitava.

O silêncio se instalou entre nós dois e fomos deixando que a tarde chegasse por entre os ramos e cipós. Mais tarde, quando a noite acabou de desprender-se das árvores e, voando, cobriu o céu, Durito me perguntou:

Capitão… Capitão… Psiu! Tá dormindo?

Não… que foi? – respondi.

Durito pergunta com tristeza, como que temendo lastimar.

E o que você pensa em fazer?

Eu sigo fumando, olho para os riscos prateados da lua por entre os galhos. Solto uma baforada de fumaça e lhe respondo e me respondo:

Ganhar.

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Carta ao menino Miguel

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Ao menino Miguel A. Vazquez Valtierra.

La Paz, Baixa Califórnia Sul.

Ao menino Miguel A. Vazquez Valtierra.

La Paz, Baixa Califórnia Sul.

 

Miguel:

Sua mãe me entregou a foto em que você aparece com o seu cachorro. Aproveito a viagem de volta da sua mamãe para te escrever essas linhas apressadas, que, talvez, você ainda não consiga entender. No entanto, estou seguro de que um dia, como aquele em que eu escrevi o que agora te mando, você entenderá que é possível que exista homens e mulheres como nós, sem rosto e sem nome, que deixam tudo pra trás, até mesmo a própria vida, para que outros (crianças como você e que não são como você) possam acordar todas as manhãs sem ter que calar e sem máscaras para enfrentar o mundo. Quando esse dia chegar, nós, os sem rosto e sem nome, poderemos descansar, por fim, sob a terra… bem mortos, é verdade, mas contentes.

Nossa profissão: a esperança.

Já quase morre o dia, escuro, como quando se veste de noite e espera nascer o outro dia, (primeiro, com o seu véu negro e, depois, com o cinza ou o azul, segundo a vontade do sol de iluminar ou não), poeira e lodo por todo o nosso caminho. Já quase morre o dia, nos braços noturnos dos grilos, e, então, me vem essa ideia de te escrever para te dizer algo que venha desses “profissionais da violência”, como tanto costumam nos acusar.

E acontece que, sim, nós somos profissionais. Mas a nossa profissão é a esperança. Nós decidimos, um belo dia, nos tornar soldados para que um dia os soldados não sejam mais necessários. Isto é, escolhemos uma profissão suicida, porque é uma profissão cujo objetivo é desaparecer: soldados que são soldados para que um dia ninguém tenha mais que ser soldado. Claro, né? E, então, acontece que esses soldados que querem deixar de sê-lo, nós, temos algo que os livros e os discursos chamam de “patriotismo”. Porque isso que nós chamamos de pátria não é uma ideia que existe apenas nas cartas e nos livros, mas o grande corpo de carne e osso, de dor e sofrimento, de pena, de esperança que um dia, enfim, tudo mude. E a pátria que nós queremos há também de nascer dos nossos erros e tropeços. Das nossas perdas e dos nossos corpos rotos haverá de se erguer um novo mundo. Nós os veremos? Importa se o veremos? Creio que não importa tanto, como ter a certeza de que nascerá e que, no longo de doloroso parto da história, algo e tudo colocamos: vida, corpo e alma. Amor e dor, que não apenas rimam, mas que se irmanam e juntos marcham. Por isso, nós somos soldados que querem deixar de ser soldados. Mas acontece que, para que já não sejam necessários os soldados, há que se fazer soldado e atirar uma discreta quantidade de chumbo, chumbo quente escrevendo liberdade e justiça para todos, não para um ou para alguns, mas para todos, todos, os mortos de ontem e de amanhã, os vivos de hoje e de sempre, todos que chamamos de povo e pátria, os sem nada, os perdedores de sempre antes de amanhã, os sem nome, os sem rosto.

E ser um soldado que quer os soldados já não sejam mais necessários é muito simples, basta responder com firmeza ao pedacinho de esperança em que as pessoas depositam em nós, os que não têm nada, os terão tudo. Por eles e pelos que foram ficando pelo caminho, por uma e outra razão, todas injustas. Por eles, devemos nos empenhar de verdade em mudar, de sermos melhores a cada dia, cada tarde, cada noite de chuva e grilos. Acumular ódio e amor com paciência. Cultivar a feroz árvore do ódio ao opressor, com o amor que combate e libera. Cultivar a poderosa árvore do amor, que é vento que limpa e cura, não o amor mesquinho e egoísta, o grande, o que melhora e engrandece. Cultivar entre nós a árvore do ódio e do amor, a árvore do dever. E, nesse cultivo, por a vida toda, corpo e alma, alento e esperança. Crescer, então, crescer e engrandecer-se, passo a passo, degrau por degrau. E, nesse sobe e desce de estrelas vermelhas, não temer, não temer senão a rendição, o sentar-se numa cadeira para descansar enquanto outros seguem, a tomar alento enquanto outros lutam, a dormir enquanto outros velam.

Abandona, se o tem, o amor pela morte e o fascínio pelo martírio. O revolucionário ama a vida sem temer a morte, e busca que a vida seja digna para todos, e, se para isso deve pagar com a morte, o faz sem dramas nem titubeios.

Receba o melhor dos meus abraços e essa dor terna que sempre será esperança.

Saúde, Miguel.

 

Das montanhas do sudeste mexicano,

Subcomandante Insurgente Marcos.

 

PS. Aqui, nós vivíamos pior que os cachorros. Tivemos que escolher: viver como animais ou morrer como homens dignos. A dignidade, Miguel, é a única coisa que não se deve perder nunca… nunca.

 

(La Jornada, 5 de março de 1994)

A historia de Durito

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Vou te contar uma história que me aconteceu noutro dia. É a história de um pequeno besouro, que usa óculos e fuma cachimbo. Eu o conheci num dia em que estava procurando o meu tabaco para fumar e não o encontrava. De repente, vi que do lado da minha rede tinha um pouco caído e que se formava uma trilhazinha. Fui seguindo pra ver onde dava a trilha e averiguar quem é tinha pegado o meu tabaco, e o estava levando. Uns metros adiante, detrás de uma pedra, encontrei um besouro sentado numa pequena escrivaninha, lendo uns papeis e fumando num cachimbo diminuto.

– Ram, Ram – disse para que o besouro desse pela minha presença. Mas ele me fez pouco caso.

Então, eu disse:

– Ei, esse tabaco é meu.

O besouro tirou os óculos, me olho de cima a baixo e disse muito zangado:

– Por favor, capitão, suplico-lhe que não me interrompa. Não vê que estou estudando?

Eu me surpreendi um pouco, e já iria lhe dar um tapão, quando consegui me acalmar e sentei num canto para esperar que ele terminasse os seus estudos. Em pouco tempo, ele recolheu os papeis, guardou-os na escrivaninha e, mordiscando o seu cachimbo, me disse:

– Bom, agora sim. Em que posso servi-lo, capitão?

– Meu tabaco – lhe respondi.

– Seu tabaco? – disse-me. Quer que eu te dê um pouco?

Eu já começava a ficar puto, quando o pequeno besouro me alcançou com a sua patinha a pequena bolsa de tabaco, e acrescentou:

– Não fique zangado, capitão. Entenda que aqui não se pode conseguir tabaco e tive que tomar um pouco do seu emprestado.

Eu fiquei mais tranquilo, começava a me simpatizar com ele. Então, lhe disse:

– Não se preocupe. Eu tenho mais por aí.

– Hum – respondeu.

– E você, como se chama? – eu perguntei.

– Nabucodonosor – disse, e prosseguiu – mas meus amigos me chamam de Durito. Você pode me chamar de Durito, capitão.

Eu lhe agradeci a atenção e perguntei o que é que ele estava estudando.

– Estudo sobre o neoliberalismo e a sua estratégia de dominação para a América Latina – respondeu-me.

– E de que serve isso pra um besouro? – perguntei-lhe.

E ele me respondeu muito zangado: “Como de que serve? Tenho que saber quanto tempo vai durar a luta de você, e se vão ganhar ou não. Além do mais, um besouro deve se preocupar, sim, em estudar a situação do mundo em que vive. Não lhe parece, capitão?”

– Não sei – disse-lhe. Mas para que você quer saber quanto tempo vai durar a nossa luta, e se vamos ganhar ou não?

– Bom, você não entendeu nada – me disse, pondo os óculos e acendendo o cachimbo. Depois de soltar uma boa baforada de fumaça, continuou:

– Para saber quanto tempo nós, os besouros, vamos estar cuidando para não ser esmagados pelas suas botinas.

– Ah! – disse.

– Hum – ele disse.

– E a que conclusão você chegou com os seus estudos? – perguntei-lhe.

Ele pegou os seus papeis na escrivaninha e começou a folheá-los.

– Hum… hum – dizia a todo momento, enquanto os revisava.

Após terminar, olhou-me nos olhos e disse:

– Vocês vão ganhar.

– Isso eu já sabia – disse-lhe. E acrescentei: Mas não sabe quanto tempo vai demorar?

– Muito – disse-me, suspirando com resignação.

– Isso também eu já sabia… Não sabe quanto tempo exatamente? – perguntei.

– Não se pode prever com exatidão. Há que ser ter em conta muitas coisas: as condições objetivas, a maturidade das condições subjetivas, a correlação de forças, a crise do imperialismo, a crise do socialismo, etcétera, etcétera.

– Hum – eu disse.

– No que você está pensando, capitão?

– Em nada – respondi-lhe. Bom, senhor Durito, tenho que me retirar. Tive muito prazer em conhecê-lo. Saiba você que pode pegar todo o tabaco que quiser, quando quiser.

– Obrigado, capitão. Pode me chamar só de Durito, se quiser – disse-me.

– Obrigado, Durito. Agora, vou dar ordem aos meus companheiros de que está proibido pisar nos besouros. Espero que isso ajude.

– Obrigado, capitão, nos será de muita utilidade a sua ordem.

– Como quer que seja, tome cuidado, porque os meus rapazes são muito distraídos e nem sempre olham por onde pisam.

– Assim o farei, capitão.

– Até logo.

– Até logo. Venha quando quiser e conversaremos.

– Assim o farei – disse, e me retirei até a intendência.

[Subcomandante Insurgente Marcos, in: 10 de abril de 1994.]

Yo tengo un hermano vivo.
Nasció en una madrugada de enero
ese mi hermano.

Extendido sobre la tierra
con el pecho en flor
chorreaba
escarlata
el néctar de la vida.

En el suelo que bebió su sangre
salió a la luz
tres días después
muy colorada
la flor de la libertad.

La flor que es mi hermano
aún resiste
y todos los pasantes
que miran mi a hermano
dicen:
“que hermosa flor!”

El colibrí
que besa la fronte de mi hermano
lleva
en su pico
dulce como la miel
la esperanza,
la obstinada esperanza,
a todos los rincones.

Del corazón de mi hermano
recogí la bala y
el nombre.
Por eso
porque la lucha no tiene fin
yo tengo un hermano vivo.

Somos um exercito de sonhadores

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ANEDOTAS QUE SERVEM PARAR SORRIR E

PARA DEMONSTRAR QUE SOMOS INVENCÍVEIS E ETCÉTERA

I

Saem os exploradores muito cedo, regressam à tarde e reportam-me:

– Encontramos um acampamento de campesinos numa brecha, tem uns dois anos e se vê que ali acamparam muitos, porque há 15 ou 20 toldos. Há muitos bancos – diz o responsável pela exploração.

– Sim – interrompe o que o acompanhava -. Se vê que encheram a cara de atole e houve festa.

Eu assinto com resignação e lhes digo que está bem, que limpem a arma. No dia seguinte, vou à exploração – encontramos o mencionado acampamento: há apenas cinco toldos e um banquinho. Mando que busquem picadas nas matas ao redor, enquanto sento no banco. É inútil, não há nada que me diga que houve festa e tomaram atole. Regressamos em silêncio.

II

Saem outra vez os exploradores. Regressam e me reportam:

– Encontramos um grande arroio, vê-se que não se seca nunca.

– Sim – diz o outro que o acompanhava. – Há poças e dá até pra tomar banho.

Eu assinto com resignação e lhes digo que está bem, que limpem a arma. No dia seguinte, eu vou à exploração – encontramos o mencionado arroio: tem cinco centímetros de profundidade na parte mais funda, corre uns 20 metros e desaparece. Caminho até o seu leito e vejo que é produzido pelo escorrimento da água das chuvas armazenada na lama; Digo-lhes:

– Este arroio vai secar.

– Não seca, não – dizem-me.

Regressamos em silêncio.

Por dois dias, passam por aí os exploradores – regressam e reportam-me:

– O arroio está seco. Mas encontramos outro maior, que não seca.

– Sim – diz o outro que o acompanhava. – Há poças e dá até pra tomar banho.

Eu assinto com a cabeça e lhes digo que está bem, que limpem a arma.

III

Em suma: somos um exército de sonhadores e, por isso mesmo, somos invencíveis. Como não vencer com esta imaginação que tudo transforma?

Não podemos perder.

Ou, melhor dizendo, não merecemos perder…

Carta do Subcomandante Marcos a Eduardo Galeano, 1994.

Los nadies

OS ZÉS-NINGUÉM

Eduardo Galeano

 

Sonham as pulgas com comprar um cão

e sonham os zés-ninguém com deixar de ser pobres,

que em algum mágico dia

chova de repente a boa sorte,

que chova a cântaros a boa sorte;

mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje,

nem amanhã, nem nunca,

nem em chuvisquinhos cai do céu a boa sorte,

por mais que os zés-ninguéns a chamem

e ainda que lhes cocem a mão esquerda*,

ou levantem da cama com o pé direito,

ou comecem o ano trocando de escova.

 

Os zés-ninguém: os filhos de ninguém,

os donos de nada.

Os zés-ninguém: os nulos, os menoscabados,

passando fome, morrendo em vida, fodidos,

re-fodidos:

 

Que não são, ainda que sejam.

Que não falam idiomas, senão dialetos.

Que não professam religiões

senão superstições.

Que não fazem arte, senão artesanato.

Que não praticam cultura, senão folclore.

Que não são seres humanos,

senão recursos humanos.

Que não têm cara, senão braços.

Que não têm nome, senão número.

Que não figuram na história universal,

senão nas páginas policias da imprensa local.

Os zés-ninguém,

que custam menos

que a bala que os mata.

 

* Em alguns lugares da América Latina, existe uma superstição que diz que, quando alguém sente coceira na mão esquerda, é porque ela receberá algum dinheiro.